quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Por trás das cortinas


Teatro Sesiminas
Antes de tudo, o sonho de vencer. Mas o teatro nem sempre é capaz de brindar com um final feliz a carreira de quem, em Belo Horizonte, luta para brilhar nos palcos.

João Paulo Freitas e Felipe Freitas 

O teatro é uma arte que sobrevive há milênios e com o passar dos tempos sofreu mudanças. Surgiu na Grécia, no século VI A.C, em festas dionisíacas — homenagem a Dionísio, deus do vinho, do teatro e da fertilidade — em comédias, tragédias e sátiras. Apesar de ter sofrido várias transformações, não perdeu sua magia. Autores como Ésquilo e Sófocles, nos primórdios, deram lugar a dramaturgos como William Shakespeare, na Idade Moderna, até chegar às manifestações de vanguarda dos dias atuais.

No Brasil, desde a vinda da família real portuguesa, o teatro sempre esteve entre as principais manifestações culturais do país. Entre os vários autores brasileiros, de Martins Pena, de quem até hoje se encena peças como “O Noviço” a Nelson Rodrigues, o teatro brasileiro se abriu em vertentes múltiplas, que abrigaram a vanguarda de Oswald de Andrade, o realismo de Plínio Marcos e até mesmo a maestria de Francisco Buarque de Holanda — “Gota d’Água” (com Paulo Pontes), “Calabar” (com Ruy Guerra) e “O Grande Circo Místico”.

Jessica Barros
Brilhar nos palcos
“Teatro é a melhor forma de expressão do corpo e alma. Me encanta saber que podemos tocar os outros com uma interpretação”, diz a atriz e estudante, Jessica Barros, 21, ao falar sobre o que mais a atraiu no teatro. Mas, ela, assim como Bell Lara, 21, tem a mesma opinião sobre as dificuldades que, dentro ou fora de cena, esperam os novos atores.

— A entrada para este mundo é bem complicada; na maioria das vezes, tem que se conhecer alguém, ou lutar bastante para se destacar, mas, se você é talentoso, com certeza pode passar o tempo que for que irá conseguir seus objetivos — afirma Bell Lara, que estuda teatro, e sonha brilhar nos palcos.

Há quem procure atividades relativas ao teatro para se desinibir, mas, o ator de verdade, com o tempo vai se apaixonando pelo palco e não quer sair dele nunca mais. A constatação é de Bell Lara, e se baseia numa experiência muito pessoal.

— No início, era mais descontração, mas depois me apaixonei e resolvi estudar profundamente.

Rafael Mazzi ( foto:Letícia Ferreira Fotografia)

Adrenalina nas coxias
“Quando se vai ao teatro, é tudo tão real, tão perto de você que, às vezes, achamos que fazemos parte da história,” reconhece Jéssica, ao comentar sobre a magia do teatro. Rafael Mazzi, 31, um dos atores da peça “O marido da minha mulher”, fala sobre a adrenalina que reina nas coxias (o espaço do teatro que antecede a entrada no palco) antes de cada espetáculo.

— O teatro é mágico porque se faz ao vivo. As pessoas sentem, choram, riem, aplaudem. Você faz um trabalho de qualidade e tem o retorno imediato de quem assiste. O maior barato são o frio na barriga, as preparações, os ensaios, a química com a produção e elenco. Tudo isso é prazeroso.

Dessa magia também não escapou a atriz Bella Marcatti, que já fez a peças como “O marido da minha mulher”, “Dez maneiras incríveis de destruir seu casamento” e o espetáculo “Improcedente”, entre outras. Para ela, “o contato direto com o público e a resposta imediata são um momento único: você sabe no mesmo momento se está agradando a plateia ou não."
 Espetáculos de improviso, como “Improvável” (do Grupo Os Barbixas) e ”Improcedente” (de Uma Companhia), estão entre os que vêm ganhando espaço hoje em dia, pois geralmente são controlados pela própria plateia. Por meio de jogos de improvisação, os atores devem fazer uma cena sugerida pelo público. Há um tipo de interação que está muito presente em peças nos dias de hoje, e mostra que, o teatro incorporou novos elementos que o fortalecem mais.


Bella Marcatti ( foto:Letícia Ferreira Fotografia)
Falta profissionalismo em Minas
No meio do caminho tinha uma pedra, disse certa vez um mineiro famoso, que uma vez também percorreu o caminho que, das montanhas de Minas, nos leva ao litoral e às promessas de fama e do sucesso no Rio de Janeiro. Não é pequeno o número de atores mineiros que procurou a fama nos palcos cariocas e paulistas. Mas, nem todos, como o ancestral Lima Duarte, Lady Francisco, José Mayer, Jonas Bloch, Deborah Bloch ou Selton Mello e os novos Débora Falabella, Daniel Oliveira e a periguete Isis Valverde, atingiram o sucesso.
E o Brasil dá condições para que o ator sobreviva do teatro?  “Sim, mas tem que dar sorte de estar numa companhia boa, num projeto bacana para a Lei Federal de Incentivo, que consiga captar a grana e agradar o público. Não é impossível, mas dá pra fazer. Ou então, seja um ator global e vá para os palcos. Aí vai ter a certeza de casa cheia em qualquer lugar”, ironiza Bella Marcatti.

Já para Rafael Mazzi, conseguir sobreviver de teatro depende do ator. “Na verdade é o artista que tem de saber se tem condições para trabalhar. Se ele possui qualidades, estuda, empenha e pesquisa”, define. O que leva os mineiros a buscarem tanto o caminho para outros palcos? Não há, em Belo Horizonte, o mesmo interesse pelo teatro. A alegação é de Bella Marcatti, que hoje, tenta um lugar ao sol na cena paulista e fala com a autoridade de quem vivenciou os dois lados da moeda.
Bell Lara
— Em São Paulo, os teatros estão sempre cheios em qualquer lugar, dia e horário. O povo paulista gosta e se interessa pelo teatro. Em Belo Horizonte, fora da época de Campanha de Popularização, a coisa mais difícil que tem é ver um espetáculo com meia casa cheia.
No Rio de Janeiro, o teatro é levado a sério como uma profissão do dia a dia. A afirmação é de Bell Lara, que optou por fazer um novo curso de teatro na Cidade Maravilhosa, e percebeu que, lá, as peças eram elaboradas com mais seriedade, e por isso, ficavam mais tempo em cartaz. “Em Belo Horizonte, uma temporada, na maioria das escolas cênicas, dura três dias; lá, um mês”. Mas, a capital mineira em breve poderá se equiparar aos grandes centros. “Aos poucos, cursos técnicos e workshops ajudam a vivenciar o crescimento,” é o que afirma o otimista Rafael Mazzi. Hoje, Jessica Barros espera que a capital invista na cultura. “Criar mais centros de arte onde haja cursos e apresentações e levar peças para as escolas, afinal, teatro é a arte que serve não só para atores, mas para a vida”.

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